Um Fulham com coqueiros
Temo que, a esta altura, este cronista não tenha muito a acrescentar sobre a permanência do Maior Clube do Mundo na primeira divisão, salvo, talvez, uma expressão um tanto genérica de votos de que os eternos recalcados — os fregueses habituais de chez nous e os invejosos do interior caipira — possam tirar o melhor proveito possível de sua viagem forçada à puta que os pariu, aonde se dirigem, segundo parece, com o objetivo de agasalhar com o esfíncter já lasso uma trosoba hirta, fumegante e cheia de veias (royalties para o engenheiro Olavo Pascucci).
Os sete leitores que acompanham meus escritos talvez se recordem que o Dr. Tinhorão se encontra exilado na vizinha República Argentina, resolvido a não tornar a pôr os pés em casa enquanto o Flamengo persistir no vício de disputar rebaixamentos em vez de campeonatos. Talvez o dia da volta para casa esteja próximo, Deus esteja. Minha condição original — a de que os srs. Gérson Biscotto e Anderson Barros recebessem o que lhes é devido (um vigoroso pontapé nos entrefolhos e um "muito obrigado por porra nenhuma") — parece já ter sido cumprida com a intervenção branca dos srs. Kléber Leite e Hélio Ferraz no futebol rubro-negro.
Ainda assim, embora espiritualmente próximo do que se passa em São Sebastião do Rio de Janeiro, não posso acrescentar ao debate senão uma visão de exilado, baseada tanto nas notícias que me chegam diretamente do Brasil quanto nas que recebo pela mídia argentina. E é com base sobretudo nestas últimas que lhes comento a repercussão internacional de um título há muito armado para o Curintcha e para a máfia turca que o financia.
Disse "Curintcha" e já retifico: aqui não se fala no título da incolor e insípida (embora não inodora, longe disso) agremiação interiorana; fala-se, antes, no título de Carlitos Tévez. Vocês percebem? Há a nítida sensação, nestas latitudes, de que Carlos Tévez é maior que o clube que defende, uma percepção difusa de que el Curincha le queda chico. Guardadas as devidas proporções, é um pouco como se noticiavam os feitos de Pelé no Cosmos ou de Zico no Kashima — a notícia é o jogador, o clube apenas faz parte da paisagem.
Meses atrás, este cronista resumiu — quero crer que lapidarmente, foda-se a modéstia — a maneira como o mundo exterior enxerga esse Curintcha do sr. Joorabchian. Dizia eu que, cá fora, a impressão que se tem é de que se trata de um desses clubes de bairro que de repente sofrem um takeover de um milionário excêntrico e começam a gastar os tubos para aparecer no mapa. Uma espécie de Fulham com coqueiros.
O tratamento dispensado pela mídia internacional à quase conquista curintchana não me deixa mentir. Notícia é Carlos Tévez, nunca o Curintcha, menos ainda sua torcida sem sal. Num país acostumado a presenciar festas de verdade de torcidas idem, como as do Boca e do River, ninguém há de se comover com quinze mil pederastas a gritar "Timão" e a tropeçar em melodias simples como a de Runaround Sue, que há quinze anos a insossa Fiel não consegue aprender.
Também se noticia, por estas bandas, que "está todo arreglado [...] para que el equipo de Carlos Tévez sea campeón de Brasil" e que "la labor de [Márcio] Rezende y la decisión del Superior Tribunal de Justicia Deportiva [...] cambiaron el torneo".
Alguém ainda discorda de que o Curintcha é só um Fulham com coqueiros?

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