Uma bosta
Quando o Tinhorão vivia na Mui Leal e Heróica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, costumava freqüentar um estabelecimento centenário chamado Uisqueria Bico Doce — fica ali na Rua do Rosário, esquina com Buenos Aires, em meio a puteiros de quinta categoria (um deles estampava, na entrada, o inacreditável anúncio "Strip-Tease + Caldo Verde = R$ 10,00"). Foi fundada no ano da graça de 1895, a Bico Doce — um ano de grandes idéias e grandes projetos — e parece que foi um ponto de encontro da nata do establishment carioca nos (bons) tempos em que o tout-Rio significava o tout-Brésil. Foi freqüentada pelo Barão do Rio Branco, pelo Senador Pinheiro Machado e por quem mais importava na triste República que recém nascia.
O Bico Doce de hoje decerto não é mais que uma triste lembrança daqueles tempos áureos, como tudo no Rio de hoje não é mais que uma triste lembrança de bons tempos que não voltam mais. Talvez um pouco por isso — por teimosia, para cultivar o charme da resistência cultural —, o Tinhorão fizesse questão de permanecer fiel ao estabelecimento decadente, que hoje, em vez da nobre pança do Barão do Rio Branco, abriga os amores ilícitos de chefes e secretárias que não se aventuram a almoçar juntos em lugares mais bem freqüentados.
O Bico Doce tinha um andar térreo onde se amontoava o pessoal do clube do uísque e um mezanino onde se aglomeravam os chefes desejosos de passar na cara as secretárias longe dos olhos das esposas. Minha predileção era por esse segundo piso, não por ter algum amor ilícito que cultivar, mas por pura escrotidão, para espantar, com meu falatório e minhas obscenidades, esses casaizinhos que fariam melhor se pedissem o serviço de quarto num motel qualquer de Botafogo.
A decoração ali era absolutamente surreal: um quadro de motel numa parede (um espelho com um desenho duma mulher pelada), um retrato de Gandhi noutra, de frente para uma fotografia da Marilyn Monroe mostrando mais de um quilômetro de pernas.
A troco de que vêm essas lembranças? É que o convite do meu compadre Valido para escrever neste blog me lembrou do quadro que ornamentava a escada que dá para o mezanino. Era um texto do Jaguar lamentando o fechamento do estabelecimento (suponho que depois tenha reaberto, sob nova direção). O textículo, uma pérola da nostalgia mal-humorada, sintetizava o horror dos tempos que correm em duas frases magistrais: "Assim é a vida. Uma bosta."
Estas reflexões e esta lembrança ficam por conta do meu Flamengo, moralmente já rebaixado à segunda divisão do campeonato brasileiro. O Flamengo campeão do mundo, o Flamengo campeão da América, o Flamengo pentacampeão do Brasil, o Flamengo do Zico, do Leandro, do Júnior, do Adílio e do Anselmo... rebaixado e destruído pelo descaso, pela desonestidade e pela incompetência de Luís Augusto Velloso, Kléber Leite, Edmundo dos Santos Silva, Márcio Braga, Gérson Biscotto, Anderson Barros e outros filhos da puta que não vale a pena mencionar.
Assim é a vida. Uma bosta.
Enquanto escrevo estas linhas, Carlos Gardel, no CD player, anui gravemente a minhas ponderações e ainda complementa:
Fiera venganza la del tiempo
Que le hace ver deshecho
Lo que uno amó
Com efeito.

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